Promovida pelo JB e instituições suecas, “Brazil and the Future” atraiu 250 pessoas para debater biocombustíveis, ciência, cultura e o novo papel do Brasil no mundoESTOCOLMO – Até um tempo atrás, o traço mais pitoresco que relacionava Brasil e Suécia era o fato dos suecos terem uma rainha que, embora nascida na Alemanha, passou boa parte de sua infância no Brasil – em São Paulo, onde estudou no Colégio Porto Seguro.
No entanto, o que singulariza o Brasil economicamente para a Suécia é que o país acomoda um parque industrial sueco em cidades como Curitiba ou São Paulo que rivaliza em tamanho e produtividade com os da capital Estocolmo e de Gottenburgo, dinâmico pólo de indústria e design.
Com mais de um século de presença industrial no Brasil, o primeiro momento da relação comercial entre os dois países foi em 1891, quando Lars Magnum Ericsson, fundador da gigante mundial de telefonia que leva seu nome, vendeu o primeiro aparelho telefônico ao Brasil. Hoje, há mais de 200 empresas suecas espalhadas pelo país. E empresas brasileiras de atuação global, como Embraer, Petrobras Biocombustível e Vale, têm forte presença no país escandinavo.
Os salões da Academia Real de Ciências da Engenharia, a mais antiga do mundo, foram palco de intensos debates sobre o momento especial que o Brasil vem adquirindo no mundo contemporâneo. A conferência “O Brasil e o Futuro – Biocombustíveis, Novas Energias, Ciência e Cultura”, de iniciativa do Jornal do Brasil, Casa Brasil e Câmara de Comércio Brasileira na Suécia, reuniu especialistas brasileiros e suecos – representantes da Academia Real de Ciências [responsável pela indicação dos prêmios Nobel nas áreas de Física, Química e Economia] e do Instituto Karolinska, responsável pelo Nobel de Medicina.
A iniciativa, que transcorreu entre os dias 15 e 17 de março, também incluiu reuniões de trabalho na Academia Real de Ciências e na Academia Sueca [a que cabe a seleção do Nobel em Literatura].
O diretor do Conselho Editorial do JB, Marcos Troyjo, destacou: “É inegável a crescente influência do Brasil, a maneira altiva com que atravessou a recente crise econômica mundial e o papel de equilíbrio em tabuleiros complexos da política internacional. Por isso, o JB tem realizado conferências sobre o Brasil em associação com alguns dos mais importantes centros de pensamento do mundo, como MIT, Instituto de Empresa [IE] da Espanha e Columbia University. Vamos aproveitar o interesse internacional e promover nosso país”, argumentou Troyjo.
Interesse na venda de caças e no intercâmbio tecnológico O embaixador brasileiro na Suécia, Antonino Mena Gonçalves, sublinhou o fato do País hoje ter empresas de forte presença global, como Petrobras, oitava maior empresa do mundo; Itaú-Unibanco, 10ª instituição financeira do planeta; e Embraer, líder em aviação regional. A Suécia é o maior comprador do etanol brasileiro na Europa e, para Mena Gonçalves, “o único aliado do Brasil” na esfera das alternativas energéticas. “Grande parte da Europa ainda não fez a travessia entre o discurso e a adoção de tecnologias limpas”, acrescentou.
O Secretário de Estado das Relações Exteriores da Suécia, Gunnar Wieslander, assinalou a parceria estratégica que seu país deseja estabelecer com o Brasil. Ela será reforçada com a visita dos monarcas suecos ao país nos próximo dias, quando estarão acompanhados da maior comitiva empresarial sueca de todos os tempos.
Além de parcerias em vários setores, muitos deles debatidos na conferência liderada pelo JB, como biocombustíveis, o Rei Carl Gustav deseja promover os aviões caça produzidos pela Gripen, braço de aviação e tecnologias sensíveis do conglomerado de que também fazem parte marcas como Scania e Saab. A aeronave sueca disputa com a americana Boeing [F-18 Super Hornet] e a francesa Dassault [Rafale] no processo de escolha do novo caça da aviação militar brasileira.
Carl Gustaf sabe da difícil tarefa de convencimento que tem à frente: 'é sempre um problema ter de optar entre coisas boas. Espero que o Brasil faça a escolha certa', declarou em recente entrevista. 'Se escolhidos, ficaremos muito orgulhosos. Podemos fazer uma cooperação muito forte, com ampla transferência de tecnologia em vários setores'.
Etanol e Biocombustíveis O diretor de etanol da Petrobras, Ricardo Castello Branco, tratou de desfazer o mal-entendido de que a produção de etanol e demais biocombustíveis no Brasil contribui para a devastação da Amazônia. “Toda a produção brasileira está centrada ao longo da Costa, não nos concentramos em terras amazônicas”. Afirmou também que não é de estranhar o protagonismo brasileiro em energias alternativas. Já em 1925, o Brasil promoveu os primeiros testes mesclando etanol à gasolina. Discorreu sobre os imensos desafios logísticos para o escoamento do Etanol brasileiro em vias ferroviárias que interligam Goiás, Minas Gerais e o interior de São Paulo ao Porto de Santos. Projetou que a Petrobras já trabalha na pesquisa & desenvolvimento de biocombustíveis de segunda geração, como o Bioetanol celulósico e a conversão crescente de biomassa em líquidos.
Para Martin Lundstedt, Vice-Presidente Executivo da Scania, o Brasil ocupa o topo das prioridades. “Vendemos no Brasil quase três vezes mais veículos pesados do que na Alemanha, nosso segundo mercado. Estamos implementando e vencendo o desafio dos biocombustíveis. Na Europa, parte importante de nossa frota já se movimenta dessa forma. No Brasil, temos também de implementar política de treinamento a motoristas de ônibus e caminhões, pois ainda temos ajustes técnicos quanto à aceleração e tempo de resposta em veículos movidos a etanol e biocombustíveis”.
Roberto Cortes, presidente da MAN América Latina, multinacional alemã que assumiu as operações da Volkswagen Caminhões e Ônibus no Brasil, notou que apenas 10% das estradas do país são pavimentadas, e destas, apenas um quarto tem boas condições de uso. Comparou a situação com países como a Alemanha e a Coreia do Sul, onde 100% das vias têm bom asfalto. O executivo brasileiro defendeu o aumento do uso de biocombustíveis na mistura com o diesel. “Estou convencido que a solução para o Brasil é biodiesel em larga escala. Isso se reflete na ação da MAN, que já em 2009 produziu veículos de geração B20, que suportam 20% de biodiesel à mistura com o diesel”.
Já o Presidente do Comitê de Energia da Academia Real de Ciências da Suécia, Sven Kullander, criticou a suposta prioridade que Brasil e Suécia dão ao etanol e outros biocombustíveis. “Isso se faz em detrimento da produção de alimentos. Uma catástrofe alimentar pode ocorrer até o ano de 2050, quando não será possível alimentar as 9 bilhões de pessoas que habitarão o planeta”. Kullander entende que o petróleo e a cadeia de combustíveis fósseis deveriam preferencialmente ser enfrentados por fontes energéticas como a hidroelétrica, fotovoltaica [solar] e eólica [do vento].
Tal perspectiva foi rebatida por Alan Kardec Duailibe Barros Filho, diretor da ANP, Agência Nacional do Petróleo, órgão regulador do petróleo, etanol e biocombustíveis no Brasil. Kardec explicou que o Programa Nacional do Biodiesel tem forte apelo de inclusão social, além de não ser fator de menor plantio de alimentos. Kardec também acrescentou que o Brasil aprendeu em tempos recentes que condições climáticas e vantagens comparativas em commodities não são suficientes para que o Brasil confirme projeções que o elevam à condição de superpotência energética. “O pré-sal e o etanol só foram possíveis porque o Brasil investiu em tecnologia. Temos patentes e know-how, e isso nos credencia a novas parcerias de conhecimento com a Suécia”, afirmou Kardec.
Marcello Hallake, sócio do escritório Thompson & Knight e diretor da Brazil Foundation, de Nova York, tratou do quadro jurídico de negócios no Brasil. “É um encontro entre diferentes tempos históricos. Temos ainda forte conteúdo burocrático, resultante do cartorialismo e modelo legal de nossa colonização. Por outro lado, o Brasil avançou muito em áreas como a nova lei de falências e os casos de precedentes jurídicos estabelecidos,